quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Cine debate sobre liberdade sexual



Acontece hoje no SOS Corpo, o cine debate com temática voltada para o dia da visibilidade lésbica, comemorado em 29/08. Na oportunidade além dos filmes, haverá uma roda de dialogo sobre o tema, a liberdade sexual das mulheres, que tem como convidadas Joyce Alves do grupo Labrys, Sinara Klyni da Liga Brasileira de Lésbicas-PE e Sílvia Dantas do Fórum de Mulheres de Pernambuco. 
O cine debate é aberto ao publico, e começa pontualmente as 19h com a exibição dos filmes "Loucas por liberdade- Brasil/2012" e "Desejo Proibido, parte 1- EUA/2000".





SOS Corpo
End.: Rua Real da Torre, Nº593, no bairro da Madalena, ao lado do Mercado Publico da Madalena. 






segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Dicas de Leitura 7

Uma história mais ou menos parecida' é voltada para o público infantil.
História é da escritora mineira Márcia Paschoalin.

 

Ilustradora da PB busca apoio para publicar livro que aborda racismo

A ilustradora paraibana Juliana Fiorese se envolveu em um projeto literário especial: 'Uma história mais ou menos diferente', da escritora mineira Márcia Paschoalin, conta a história de uma princesa negra. O livro vem sendo produzido desde junho e é a terceira publicação infantil de Juliana, que se formou em arquitetura e design gráfico em João Pessoa.
A temática do livro é voltada para o preconceito racial entre as crianças através de uma releitura do clássico Branca de Neve e os 7 anões. A narrativa é totalmente adaptada à proposta do combate ao preconceito e insere a heroína, a princesa Pérola Negra, em aventuras inusitadas.

Juliana conta que estava à procura de parcerias e que tinha enviado seu portfólio para editores e escritores quando  Márcia Paschoalin se interessou pelo seu trabalho. A autora apresentou quatro histórias diferentes para Juliana, que escolheu exatamente a de Pérola Negra porque acredita que a mensagem da trama é de extrema importância para as crianças.
"Com este projeto, nos preocupamos com o lado psicológico da literatura, pois as crianças se identificam com os personagens, principalmente as meninas, que querem ser as princesinhas lindas, maravilhosas, brancas, louras e de olhos azuis. Como é que fica a cabecinha da garotinha negra que não vê nenhuma princesa parecida com ela?", questiona Juliana.


"E pior, os personagens negros ocupam, na maioria das vezes, papéis de pessoas subalternas, ou seja, no inconsciente desta criança ficará a mensagem de que ela é inferior em relação às crianças brancas", observa.
Todos os aspectos da produção de 'Uma história mais ou menos parecida' foram combinados de forma virtual. As reuniões entre a autora, a ilustradora e o projetista gráfico, o designer Vinícius Meira, foram realizadas pela internet. Eles dividiram as tarefas e organizaram a estratégia para a impressão e divulgação do livro. A princípio, será necessário um investimento de R$ 9.500, que devem ser arrecadados junto ao público.

A campanha de arrecadação pensada por Márcia, Juliana e Vinícius inclui recompensas para os apoiadores: são sete modalidades de prêmios que o público pode receber se contribuir com o projeto. As contribuições vão desde R$ 10 e nome nos agradecimentos do livro, mais recebimento de uma versão digital,  até R$ 700 e, além do nome nos agradecimentos, o recebimento de 20 exemplares da obra.
A contribuição pode ser feita através de um site e podem ser realizadas até o dia 13 de setembro. A tiragem inicial será de mil exemplares e o valor arrecadado pagará também a produção de todas as premiações dos colaboradores mais a comissão do site de arrecadação.


Juliana nasceu na Inglaterra mas veio morar na Paraíba ainda bebê. Ela decidiu trabalhar com o que sempre a encantou, a ilustração infantil, porque acredita que "a leitura forma cidadãos melhores, mais esclarecidos e capazes de tomar decisões corretas".
"E se tornarmos a leitura um hábito, estaremos criando uma sociedade melhor. Por isso, acredito que este hábito deve ser introduzido nas nossas vidas desde a infância. De certa forma, gosto de contribuir um pouco com essa cultura da leitura. Além disso, o traço que eu acabei desenvolvendo nas minhas ilustrações é muito infantil. Então, juntei essa minha paixão por ilustração com a literatura", explicou Juliana.

Os outros títulos ilustrados por ela são 'Azur e Asmar', publicado por uma editora de João Pessoa, e 'A princesa e os sapos', da escritora Celina Portocarrero, a cargo de uma editora carioca.

Fonte: G1

sábado, 24 de agosto de 2013

Deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata!

Considerações sobre elogios racistas

Por Charô Nunes para as Blogueiras Negras

Elogio racista é toda demonstração de admiração, afetividade ou carinho que se concretiza por meio de ideias ou expressões próprias ao racismo. Com ou sem a intenção de, que fique bem claro. Um dos mais conhecidos é o famoso “negro de alma branca” que nossos antepassados tanto ouviram. Mas não são apenas nossos homens que conhecem muito bem os elogios racistas. Nós mulheres negras também somos agraciadas com esses pequenos monstrinhos, usados inadvertidamente por amigxs, familiares. Muitas vezes até por nossos parceirxs.
Decidi fazer uma lista com 5 elogios racistas (e sexistas, diga-se de passagem) que muitas de nós escutamos quase que diariamente. Alguns são consenso, acredito. Outros nem tanto. Fico aguardando ansiosa para que você, mulher negra, deixe seu comentário dizendo se também acontece com você. Se concorda, se discorda. E sobretudo, o que você faz para deixar bem claro que o elogio racista pode ser tudo, menos bem vindo e apreciado.
Cena de Vênus Negra, de Abdellatif Kechiche

01. “Você é uma morena muito bonita”

Esse é o elogio racista que mais escutei em toda minha vida. Minhas primeirass lembranças são do tempo da escolinha. Mesmo mulheres como Adriana Alves ainda são chamadas de morenas, pois se acredita que chamar alguém de negra é uma ofensa racial. Se você precisa se expressar, tente um simples “você é bonita ou atraente”. Ou ainda “você é uma negra linda”, o que, dependendo do contexto pode ser tão ruim quanto.
Mas em hipótese alguma diga que uma negra é morena, moreninha, morena escura. Que não é negra. Isto sim é racismo dos graúdos, pura e simplesmente. Quando acontece comigo, digo que não sou morena e nem moreninha, sou n.e.g.r.a. O bom é que, dependendo de como essa resposta é dada, a pessoa já se toca que ela não deveria ter começado o conversê, que simplesmente não estou disponível para esse tipo de diálogo. Nem com conhecidos, muito menos com estranhos.

02. “Seu cabelo é muito bonito, posso pegar?”

Há alguns anos atrás, uma senhora ultrapasssou todos os limites de uma convivência pacífica ao se aproximar de mim, cheia de dedos, me tocando sem permissão e dizendo que eu tinha uma “peruca muito bonita”. Não retruquei de caso pensado, antecipando seu constrangimento por jamais ter cogitado que uma mulher negra pudesse ter um cabelo comprido, ao natural. Minha vingancinha, e sou dessas, foi olhar aquela expressão de arrependimento por ter percebido o que fez.
Entendo que simples visão de uma negra com cabelo natural pode ser inebriante. Que persiste a completa desinformação sobre o nosso cabelo. Porém, isso não justifica o toque sem permissão. Não importa se é cabelo natural ou não. A menos que você conheça muito bem a pessoa, não toque em seu cabelo sem consentimento. Eu iria mais longe. Para mim a boa etiqueta simplesmente reza que não se deve nem mesmo pedir para tocar o cabelo de uma pessoa desconhecida.

03. “Você tem os traços delicados”

Dizer que uma negra tem traços “delicados” muitas vezes tem a ver com a ideia de que será bonita se tiver uma expressão “fina”, leia-se semelhante a de uma pessoa branca. Como se determinado tipo de nariz (ou bochechas) fosse exclusivamente dessa ou daquela etnia. Uma de suas variantes é outra expressão igualmente racista – “você é uma mulher negra bonita” – algo que ao meu ver é a mesma coisa de dizer que “você é bonita para uma negra”.
Afinal, qual a dificuldade de dizer que uma mulher negra simplesmente é… Uma mulher bonita? Porque Alek Wek tem de ser descrita como uma “mulher negra bonita” enquanto as mulheres brancas são apenas “mulheres bonitas”? Mais uma vez, toda a sutileza do elogio racista. Ele reconhece que você é uma pessoa admirável, mas sempre fazendo questão de te colocar “no seu lugar”, como se algumas fronteiras jamais pudessem ser cruzadas.

04. “Você tem a bunda linda”

Essa é uma opinião que certamente não é unânime. Faço questão de expressá-la como uma provocação que representa o pensamento de uma parcela significativa de mulheres negras. Para muitas de nós, esse comentário expressa a hipersexualização a que somos historicamente submetidas como exemplifica a triste biografia de Saartjie, denominada a Vênus Hotentote, exposta como atração circense em função da admiração que suas nádegas causaram na Europa do século XIX.
Apesar de todo respeito que tenho por tudo aquilo que acontece entre duas pessoas, preciso considerar a tradição racista secular desse tipo de discurso. Trata-se de reduzir a mulher a um pedacinho do seu corpo, desconsiderar sua humanidade, transformá-la num pedaço de carne exposto no açougue como aconteceu e acontece diariamente. Meu conselho é pergunte antes se a mulher a quem você pretende cumprimentar tem a mesma leitura desse tipo de elogio.
Mulata da Leandro de Itaquera

05. “Você é uma mulata tipo exportação!”

Esse elogio ainda o tratamento dispensado à mulher negra no seio da senzala, da casa grande. O pensamento que nos reduz em brinquedos sexuais. Dizer que uma mulher negra é uma “mulata tipo exportação” é esquecer uma tradição escravocrata secular, que transforma a mulher negra em “peça” que alcancará boa cotação no mercado onde a carne mais barata é a nossa. O nome desse mercado é exotificação. Em alguns casos, hiperssexualização.
Infelizmente também estamos falando sobre o modo racista com que as mulatas de escola de samba, mulheres que respeito e admiro, são mostradas e consumidas. Mulheres que levam o samba no pé, no sorriso, na raça. Que, ao invés de serem uma referência de beleza, são vendidas como frutas exóticas na temporada do carnaval. Mulheres que recentemente tem sido preteridas por “personalidades da mídia” em nome de uma pretensa “democracia racial” e muitas vezes com a anuências de algumas agremiações.

Qual é a sua opinião?

Porém, preciso dizer que os elogio racistas podem (e devem)  subvertidos. Quando o assunto são as mulatas de quem já falei aqui, isso é bastante evidente. Ser uma mulata exportação também atesta um padrão de excelência e traduz qualidades como perseverança, força. Minha professora de dança adora dizer que a graça de uma bailarina é diretamente proporcional à sua força. Mulatas são a expressão mais concreta desse enunciado.
Alek Wek também é uma modelo de traços delicados

Por isso fiz questão de usar como título desse post, um trecho do poema de Elisa Lucinda, Mulata Exportação, que resume tudo o que tentei dizer até aqui: “deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata” como muita gente gosta de pensar. E acrescento, “opressão, barbaridade, genocídio, nada disso se cura trepando com uma escura!”Muito menos tecendo elogios racistas, diga-se de passagem. Quem o diz é a mulata exportação do poema. Sou eu, somos todas nós que já ouvimos essas porcarias.
Confesso que essa lista tem algo de muito pessoal, cujas entrelinhas tem muitas dedicatórias alimentadas por ironia. Nem por isso menos pertinente. Por isso adoraria ouvir a opinião de vocês. Esqueci algum elogio racista que te incomoda? Que te fez espumar de ódio, revirar os zóios e dizer algumas verdades? Você também acredita que esse tipo de comentário, como tudo aquilo que é racista e preconceituoso, diz muito sobre a pessoa que o faz do que sobre a pessoa a quem se destina?
Fonte:Blogueiras Negras

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Marchar contra o Genocídio do Povo Negro - O Flores Crew vai marchar!!

Campanha Reaja ou será Morta, Reaja ou será Morto

A marcha contra o Genocídio do Povo Negro está marcada para quinta-feira (22), com articulação nacional. 

 

 

Nós, povo negro baiano, organizados em várias agremiações, organizações, entidades e grupos políticos e religiosos, vindos de várias regiões do estado e de muitas cidades brasileiras, e, ainda, fortalecidos por representações internacionais, nós, homens, mulheres, jovens, crianças e idosos, vamos tomar a rua numa marcha contra o genocídio do povo negro.
Considerando que nossa situação de pobreza e exclusão é resultado de séculos de desigualdades e do racismo estrutural, que nos etiqueta como bandidos e criminosos a serem abatidos;
Considerando as altas taxas de homicídios, execuções sumárias e extrajudiciais e a brutalidade policial, além dos grupos de extermínio que atuam contra nós negros e negras;
Considerando o encarceramento em massa dos negros e negras, os desrespeitos ao corpo das mulheres nas revistas vexatórias, o descaso no acesso a justiça;
Considerando que a militarização do espaço territorial urbano onde vive as pessoas negras, com a promessa de se levar serviços públicos, tem levado o terror, o controle, numa abordagem que nos faz parecer inimigos internos do Estado brasileiro, nos fazendo sentir estrangeiros em nosso próprio país. Considerando o projeto de segurança publica do Estado, O Pacto Pela Vida que não nos considera humanos;
Considerando que a comunicação está atrelada a princípios e valores humanitários e os programas televisivos de cunho policial expõe nossa desgraça e reforça estereótipos racistas sobre negros e negras, justificando nosso extermínio cotidiano e tem um papel fundamental sobre o genocídio do negro no Brasil;
Considerando a luta das mulheres negras, mães, esposas, companheiras, irmãs, filhas, que vivem situações de violência, que tem enterrado seus entes queridos e reconhecidos corpos no Instituto Médico legal ( IML), que tem sido criminalizadas pelo simples vínculo afetivo que tenha pelos homens negros cassados pelos poderes de justiça do pais. Essas mulheres reais, fazem um chamado agora
Sairemos as ruas por nossas vidas, para apresentar outro projeto de segurança pública que não seja racista e genocida.
Frente ao genocídio do povo negro nenhum passo atrás!

video

 Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=Vu1MofUkbY8&feature=youtu.be

Fonte: Reaja ou será morto, Reaja ou será morta
Texto publicado originalmente na página do facebook da Campanha.

Sobre a Campanha:

A Campanha Reaja é uma articulação de movimentos e comunidades de negros e negras da Capital e interior do Estado da Bahia com uma interlocução nacional com organizações que lutam contra a brutalidade policial, pela causa antiprisional e pela reparação aos familiares de vítimas do Estado ( Execuções Sumárias e extra-judiciais) e dos esquadrões da morte, milícias e grupos de extermínio.



domingo, 18 de agosto de 2013

Dicas de Leitura 6


O Dicas de Leitura de hoje traz o artigo de Marcia Tiburi sobre Pichação (ou Pixação como sugere a autora). O Dicas dessa semana foi uma sugestão da Elisa Victor.
Pixo e foto Flores Crew

Pensamento PiXação

Para questionar a estética da fachada


A revolta geral da sociedade contemporânea contra a pichação se ampara na hipótese de seu caráter violento. Usarei a expressão pixação, com X, para tentar tocar no X da questão.  A estética da brancura ou do liso dos muros, hegemônica em uma sociedade que preserva o ideal da limpeza estética, dificulta outras leituras do fenômeno da pixação. O excessivo amor pela lisura dos muros, a sacralização que faz da pixação demônio, revela enquanto esconde uma estética da fachada.

Toda estética inclui uma ética, assim a da fachada. Fachada é aquilo que mostra uma habitação por fora; pode tanto dar seqüência ao que há na interioridade, quanto ser dela desconexo. É da fachada que se baste por si mesma à medida que lhe é próprio ser suficiente aos olhos. A estética da fachada que defende o muro branco é a mesma que sustenta a plastificação dos rostos, a ostentação dos luxos no “aparecimento geral” da cultura espetacular, no histérico “dar-se a ver” que produz efeitos catastróficos em uma sociedade inconsciente de seus próprios processos.

Nesta São Paulo do começo de século 21 não é permitido cobrir “fachadas” com propagandas e outdoors. A proibição, ainda que democrática, produz um novo efeito de observação da cidade. Tornou-se visível o que se ocultava por trás do “embelezamento” capcioso sobre um outro cenário. A obrigação do padrão do liso é efeito da democracia que, no entanto, flerta com sua manutenção autoritária. É o desejo governamental da neutralidade e da objetividade no espaço público o que deve servir de cenário à vida na cidade. Governar é no Brasil a habilidade de comandar a fachada que na administração paulistana sai do símbolo para entrar na prática mais imediata do cotidiano. A vontade de fachada é, afinal, uma vontade de poder compartilhada por toda a cultura em todos os seus níveis.

A pixação é o contrário do outdoor, ainda que compartilhe com ele a proibição de aparecer no cenário urbano comprometido pelo governo com uma neutralidade que serve à mesma ocultação de carroceiros e outros excluídos. Ampara-se no olhar burguês cego para mendigos e crianças abandonadas nas ruas. Enquanto o outdoor pode se sustentar no pagamento das taxas que o permitem, a pixação não alcança nenhuma autorização, ela está fora das relações de produção. O que o outdoor escondia era muitas vezes a própria pixação, enquanto a pixação não esconde nada, ela é o que se mostra quando ninguém quer ver sendo meramente compreendida como “ofensa” ao muro branco. Anti-capitalista, a pixação não se insere em nenhuma lógica produtiva, ela é irrupção de algo que não pode ser dito. Sem pagar taxas, o pichador exercerá uma espécie de lógica da denúncia. Mas quem poderá perceber?

Não é possível negar o direito ao muro branco ou liso em uma sociedade democrática, na qual está sempre em jogo a convivência das diferenças. O direito ao muro branco é efeito da democracia. Mas a questão é bem mais séria do que a sustentação de uma aparência ou de um padrão do gosto. A pixação é também um efeito da democracia, mas apenas no momento à ela inerente em que ela nega a si mesma. Ela é efeito do mutismo nascido no cerne da democracia e por ela negado ao fingir a inexistência de combates intestinos e velados. A pixação é, neste sentido, a assinatura compulsiva de um direito à cidade. Um abaixo-assinado, às vezes surdo, às vezes cego, pleno de erros, analfabeto, precário em sua retórica, mas que, em sua forma e conteúdo, sinaliza um retrato em negativo da verdade quanto ao espaço - e nosso modo de percebê-lo - nas sociedades urbanas. Espaço atravessado, estraçalhado, pela exclusão social.



Pixo e foto Flores Crew


A pixação é uma gramática que requer a compreensão da brancura dos muros. O gesto de escrever só pode ser compreendido tendo em vista que todo signo, letra, palavra, investe-se contra ou a favor de um branco pressuposto no papel. O grau zero da literatura é esta luta com o branco. A escrita é combate contra o branco, negação do alvor fanático, como o pensamento é sempre oposição e negação do que se dispõe como evidente, convencional, pressuposto. Por outro lado, a escrita é abertura e dissecação do branco, lapidação do branco pelo esforço da pedra, mas nunca sua confirmação, nunca é a ação da borracha, do apagamento, da camada de tinta que alisará o passado, o que desagrada ver.

Sua lógica é a do inconformismo infinito. Imagine-se uma sociedade em que o papel não fosse feito para a escrita, em que as superfícies brancas de celulose não sustentassem idéias, comunicação, expressão, afetos, anseios, angústias. Imagine-se uma sociedade em branco e começar-se-á a entender porque a pixação nas grandes cidades é bem mais do que um ato vândalo que, para além de ser uma forma de violência, define a cidade como um grande livro escrito em linguagem cifrada. O pichador é o mais ousado escritor de todos os tempos. Diante do pichador todo escritor é ingênuo. Diante da pixação a literatura é lixo.

A Cidade como Mídia

Pixo e foto Flores Crew
Uma leitura da pixação que veja nela a mera ofensa ao branco perderá de vista a negação filosófica do branco que é exercida pela pixação. A pixação eleva o muro a campo de experiência, faz dele algo mais do que parede separadora de territórios. Mais que propriedade invadida é a própria questão da propriedade quanto ao que se vê que é posta em xeque.

A pixação é o grito impresso nos muros. Ação afetivo-reflexiva em uma sociedade violenta que não aceita a violência que advém de um estado de violência. Ela é a marca anti-espetacular, o furo no padrão da falsidade estética que estrutura a cidade. É a irrupção do insuportável à leitura e que exige leitura para a qual a tão assustada quanto autoritária sociedade civil é analfabeta. E politicamente analfabeta.

Em vez do gesto auto-contente, o que a pixação revela é a irrupção de uma lírica anormal. A Internet com seus blogs (horrendos, bonitos, mais bem feitos ou mais mau-humorados) é o seu análogo perfeito. A pixação revela o desejo da publicação que manifesta a cidade como uma grande mídia em que a edição se dá como transgressão e reedição onde o pichador é o único a buscar, para além das meras possibilidades de informar ou comunicar, a verdade atual da poesia, aquela que revela a destruição da beleza, o espasmo, a irregularidade, a afronta, que não foi promovida pela pixação, mas que ela dá a ver. Em sua existência convulsa a pixação é a única lírica que nos resta.

(1) Originalmente publicado na Revista Cult 135


Marcia Tiburi é graduada em filosofia (PUC-RS) e artes (UFRGS) e mestre (PUC-RS) e doutora em filosofia (UFRGS). E publicou diversos livros de filosofia, entre eles as antologias As Mulheres e a Filosofia (Editora Unisinos, 2002),  O Corpo Torturado (Ed. Escritos, 2004), e Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero (2008, Edunisc), Seis Leituras sobre a Dialética do Esclarecimento (2009, UNIJUí). 
Esse e outros texto você encontra no http://www.marciatiburi.com.br/

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Quando tirei minha negritude do armário: negação, reconhecimento e orgulho

Por Higor Faria 

foto: Blog Racismo Ambiental

Ser negro no Brasil é uma questão que perpassa o tom de pele, o cabelo crespo e os traços (sic) não finos (sic). É uma questão política e de resistência. Fazer parte desse grupo é trazer consigo um processo histórico de escravidão e de um racismo estruturado que resultou em uma população estigmatizada, marginalizada e subjugada. Entender isso — e mais que isso — faz parte da luta diária contra o racismo velado e o explícito.
Contudo, essa consciência não nasce com quem é negro. Na verdade, é mais provável que o indivíduo não tenha contato com esse discurso e esteja vulnerável a reproduzir falas e comportamentos racistas, como a negação da própria etnia. Até meus 14 anos, eu não me identificava como negro, eu não me via como negro e eu não queria ser negro. Apesar de minha origem estar na cara, na pele, no cabelo e nos traços, a fala por mim entoada era de que meu pai – com quem eu nem mantinha proximidade – era branco, logo eu seria um mestiço (ou até moreno, risos). Isso porque, na minha cabeça, eu não queria ser o que quando “não faz merda na entrada, faz na saída”, ou que quando “parado está pensando em roubar, correndo já roubou”, ou que “não sabe qual é o pente que te penteia”, ou que veio “de um povo amaldiçoado” etc.
A figura do negro foi tão explicitamente e sutilmente (como nessas falas acima) negativada que eu não queria fazer parte de um grupo assim. Era vergonhoso. Pensava que quanto menos preto eu fosse, melhor. Maria Aparecido Silva Bento (2002) explica que isso faz parte do processo de hegemonia e opressão do homem branco, pois a branquitude se coloca num patamar de superioridade através do rebaixamento e da estigmatização da negritude. Isto é, quanto mais o preto é inferiorizado, mais o branco é colocado num espaço de ideal de humanidade. Cruel, né? E, por esse e outros motivos, eu entoava a pele clara do meu pai, afinal era a única forma de me afastar do ser negro e estar mais próximo dessa perfeição que se traduzia no homem branco.
Mal sabia eu que o processo de construção da minha identidade e do espaço que ocupo no mundo passa pelo o que afirmo ser e o que a sociedade diz sobre mim — Kabengelê Munanga (2004) fala em identidade autodeclarada e atribuída. Até então, a sociedade me apontava como negro (identidade atribuída), mesmo eu afirmando uma possível mestiçagem (identidade autodeclarada). Mas o racismo não pede licença para verificar sua origem, sua árvore genealógica ou sua quantidade de genes étnicos (Alô, BBC! Alô, G1! Neguinho da Beija-flor não poupado de racismo por ter mais gene europeu). Ele ocorre de supetão de acordo com seu fenótipo – e aos poucos fui percebendo isso e meu lugar como negro.
A partir dos 15 anos, fui me reconhecendo como negro e resolvi desenvolver um blackpower na cabeça e outro na consciência. Parecia que eu tinha ficado mais escuro, mais preto depois dessa decisão. Entre um olhar torto na rua e outros tantos bacús (abordagens policiais nada amigáveis) nas ruas de Brasília, o discurso da mestiçagem e igualdade de Gilberto Freyre foi se desconstruindo mais. Eu não entendia: se todos nós somos iguais, porque sou tratado de forma tão diferente dos meus amigos brancos? Se o tratamento é distinto, se a abordagem é diferenciada, se as oportunidades e obstáculos são relativos a sua etnia… Ora, não há igualdade! Tudo isso é definido pelo olhar do outro sobre a sua identidade negra.
Como sempre quis “incomodar”, meu black cresceu mais e meu discurso era (mesmo que ainda não embasado) mais forte, principalmente no campo visual. Foi aí que tirei minha negritude do armário. E expô-la envolveu sentir orgulho de ser parte de uma população tão e estigmatizada e querer mudar toda a configuração ruim que era atribuída a esse grupo. Ainda não sabia de que forma ocupar meu espaço na sociedade ou como construir meu discurso, mas já me colocava como negro e não aceitava que me embranquecessem – curiosamente, hoje me chamam de moreno com certa frequência, confesso: dá gastura, “ofende” (já dizia o Ilê Aiyê).
Construir minha identidade como homem negro foi complicado. Encontrar quem me apresentasse pensadores e pensamentos para que eu criasse e embasasse meu discurso foi muito difícil, mesmo na universidade – até porque é um espaço hegemonicamente branco, mas essa é outra discussão. Mesmo hoje com um acesso maior, produções mais constantes, espaços para diferentes opiniões e o índice de pessoas que se declararam negras tenha aumentado (IPEA), o conteúdo não chega ao jovem que está se construindo e se posicionando. Muitos ainda passam por um período de negação longo até se reconhecer e, por fim, tirar sua negritude do armário.
Outros negam até hoje, mesmo com a sociedade apontando sua etnia.“Enxerga quem quer!”, alguém poderia argumentar. Não é tão simples assim, pois somos ensinados desde pequenos a não querer ver, a não querer ser, ainda que nos tornem constantes vítimas do racismo. Por vezes, quando não se reconhece a própria negritude, há uma tentativa de aproximação desse suposto ideal de humanidade branco, seja por meio de um discurso genealógico ou por meio de produtos químicos, por exemplo. Não adianta! Haverá sempre um dedo social que irá te apontar como negro e dizer que você é diferente daquilo que tenta ser. Então, assumir sua identidade negra é se valorizar. É valorizar o povo negro. É contribuir para que mais gente se perceba, se identifique, se assuma e se valorize.
Black is beautiful, meu nêgo: há um ilê todinho especial para você que estampa sua negritude na rua!

Higor Faria é preto, publicitário, estuda masculinidade negra e escreve no https://medium.com/@higorfaria

Referências:
Bento, Maria Aparecida Silva — Branquemento e branquitude no BrasilIn: Psicologia social do racismo — estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil / Iray Carone, Maria Aparecida Silva Bento ( Organizadoras) Petrópolis, RJ: Vozes, 2002, p. (25-58)
Munanga, Kabengelê — Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Belo horizonte: Autêntica, 2004.
Fonte: Medium  

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Concurso de arte e customização - Vans Custom Culture



Pela primeira vez no Brasil, o Vans Custom Culture é um concurso de arte e customização que inspira estudantes do ensino médio (colegial) de todo o país à abraçar sua criatividade, chamando a atenção para a importância da arte como disciplina do conteúdo programático. O concurso oferecer aos jovens participantes a oportunidade de expor seus trabalhos.

A competição consiste em:

As primeiras 50 escolas do país (divididas pelo número de vagas por região), sendo elas públicas ou privadas, devem se inscrever no Vans Custom Culture Brasil;

Cada escola inscrita (segundo o regulamento), receberá três (03) pares de tênis Vans (Sk8-Hi, Slip-On e Authentic) para fazer as suas criações;

Cada par deverá representar um dos quatro temas do concurso: Esportes de ação (como Surf, Skate, BMX), Música, Arte e Costumes locais (inspirado no ambiente da sua comunidade, cidade ou estado);

Depois de customizar os tênis, as escolas deverão tirar uma foto de cada par, além de uma foto com os três modelos juntos, e enviar para o e-mail oficial da competição (customculture@vansdobrasil.com).

As imagens serão avaliadas pela comissão julgadora da Vans, que escolherá os 10 modelos que irão para votação pública. As três escolas que alcançarem o maior número de votos nessa etapa irão para a grande final do Vans Custom Culture Brasil, em evento que será realizado em São Paulo, no dia 9/11.
Que inscrever sua escola? Confere aqui o passo a passo: 
http://vansdobrasil.com/customculture/sobre 




quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Extra! Extra! Nova edição do Jornal Fêmea

Já está no ar a edição especial do Jornal Fêmea sobre Fundamentalismos. Artigos sobre a vinda do Papa ao Brasil, a ofensiva religiosa na política brasileira e no contexto internacional, as recentes manifestações e mais: Entrevista exclusiva com o Deputado Jean Wyllys, Mapa do Fundamentalismo no Congresso Nacional e o necessário debate sobre reforma política.

Capa da edição de Janeiro à Julho 2013
O Jornal Fêmea é produzido pelo Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o CFEMEA, que é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, autônoma e não partidária, que tem o feminismo, os direitos humanos, a democracia e a igualdade racial como marcos políticos e teóricos.
A sede do CFEMEA fica localizada em Brasilia, mas o jornal não é a unica atividade do grupo, que trabalha questões de enfrentamento da violência contra a mulher, com o jornal Fêmea, que já tem 20 anos de circulação, refletem e questionam o direito a comunicação de forma livre, uma comunicação anti patriarcal.

..."Quando criamos esse veículo, estávamos ciente de que informação é poder. Queríamos democratizar a informação, não só em termos de acesso, mas também da sua produção, por meio da veiculação dos saberes e conteúdos que nós mulheres enunciamos como questão, como problema, como perspectiva ou como alternativa. Desde então, neste modesto veículo de comunicação feminista, costumamos vocalizar o que ainda não encontra eco na sociedade e suas instituições. Veiculamos questões carregadas de relações desiguais de poder, sobre territórios políticos em disputa..."  Comenta Guacira César de Oliveira, que integra equipe técnica do CFEMEA.


Para conhecer mais o CFEMEA
 http://www.cfemea.org.br/

Para ter acesso ao jornal Fêmea no formato PDF
 http://www.cfemea.org.br/images/stories/pdf/jornalfemea174.pdf








terça-feira, 13 de agosto de 2013

Skateboarding não é crime, Violência contra mulher é!

AGRESSÃO E PRECONCEITO NO SKATE
Foto: Alessandra Jirardi
No dia 03 de Agosto a Skatista profissional Ana Paula Araújo, local de São Paulo estava praticando o skate na Praça Roosevelt quando foi brutalmente agredida e ofendida pelo Skatista Profissional da empresa Snoway, Sócio na Metallum Trucks, Juiz da Confederação Brasileira de Skate e proprietário da empresa Vegetal Skate.

Durante a sessão de skate, numa das pausas para beber água e descansar, Ana Paula Araújo estava sentada na escada da praça com alguns praticantes conversando, quando foi iniciada uma conversa com conatação de brincadeira em que um deles falou: 
“O Fulano, fala se a Paula não é um macho, aquele dia quando sua mina “tava” aí ela ficou falando dos “peitos” dela”. 
Ana Paula Araújo respondeu: “Claro a mina “mó” bonita, mas nem por isso eu sou macho, apenas não tenho vergonha de falar que uma mina é bonita”.

O Agressor preconceituoso respondeu: “Vamos parar de chamar ela de macho se não ela perde a linha e vai embora e vê se para de falar da mina do cara desse jeito seu macho, fala da minha mina pra você ver”. 
Ana Paula Araújo: “Cara, você quer zoar, zoa aí, mas sua mina é mó gata também, tem até uma cinturinha fina”. 

O Agressor surta: “Cinturinha ???? Você tá tirando ???”...
Neste momento o Agressor levanta e se posiciona atrás de Ana Paula e diz: “Você é cheia de zoar os outros e não gosta que zoem com você”, e dá um tapa na cabeça de Ana Paula. 
Neste momento ela e todos os presentes entram em choque, jamais imaginavam o que estava para acontecer.

O coadjuvante nº 1, que estava sentado ao seu lado esquerdo, segura suas mãos e fala para ela ficar calma, o coadjuvante nº 2, que estava ao seu lado direito fala para irem embora. 
Ana Paula Araújo que estava sentada, cabisbaixa e em choque, não conseguiu se mover e nem falar nada, quando o agressor veio à sua frente e fala: “Você é mó macho mesmo”, e desfere um golpe com o skate em seu rosto. Definitivamente DEU-LHE UMA SKATADA. 
Imediatamente o sangue começa a jorrar, ela não consegue enxergar de tanta dor, seus óculos quebrados.

O coadjuvante nº 1 começa a ajudar com os ferimentos e o coadjuvante nº 2 começa chorar em pânico. 
A partir daí desceram as escadas da Roosevelt para lavar os ferimentos na torneira da praça.
Em seguida o Posto da Guarda Municipal a levou para o hospital, para que fossem prestados os primeiros socorros e após os primeiros cuidados foi lavrado o Boletim de Ocorrência e realizado o exame de corpo de delito.

Enfim, Ana Paula Araújo saiu para encontrar amigos e achou que estava entre eles, em momento algum imaginou que uma simples brincadeira fosse tomar tamanha proporção. 

Frise-se que Ana Paula não é homossexual e mesmo que fosse NADA JUSTIFICARIA tamanha brutalidade.
 Mas não deixaremos impune, como skatista e Advogada Criminalista vou instaurar Queixa-Crime para que o criminoso seja processado e ao final condenado.
Tudo na forma da mais lídima JUSTIÇA.

Contamos com o Apoio da Família Skate !!!

Fonte: Alessandra Jirardi -
https://www.facebook.com/alessandra.jirardi

Na Escuta #2

video


Lamartine Silva, rapper, produtor cultural, articulador cultural, fundador da organização de Hip Hop Favela Afro, membro da rede MHHOB (Movimento Hip Hop Organizado Brasileiro).
Membro da Rede de Comunicação e Tecnologia Livre, para Populações Negras, Rede Mocambos, atualmente Conselheiro Nacional de Cultura, representando o povo afro.
Ministrou e produziu várias palestras e intercâmbio culturais em diversas cidades do Brasil e países como França, São Tomé e Príncipe, Itália, Bélgica e Espanha.
Foi coordenador do projeto governamental de inclusão digital, Casa Brasil no estado do Piauí, como também o Pontão de Cultura de Teresina, chamado Preto Ghoez - Centro de Referência da Cultura Hip Hop.
Lamartine foi componente do grupo de Rap Clã Nordestino, no qual, o disco produzido foi ganhador do Prêmio Hutúz, na categoria revelação. Além de músico atuou com apresentador em programas de rádios comunitárias e comerciais e tem seu nome presente no roteiro de um documentário chamado Hip Hop In Favela.
Atualmente Lamartine Silva é membro do coletivo casa preta de Belém

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

E hoje é dia de luta e memória



Dia
12 de agosto, é dia de olharmos para Margarida Alves, encher o peito de força e gritar ao mundo: "É melhor morrer na luta que morrer de fome".
Margarida Alves lutou intensamente por direitos trabalhistas e educação na Paraíba, sendo exemplo de luta e força, tal sonho e fala que sobreviveu ao seu assassinato.
Que esta semana que se inicia seja de memória e força a cada revolucionária e a cada revolucionário do país.


Fonte: #‎Aborígine‬
O Canto dos mártires


 
* Margarida Maria Alves (Alagoa Grande, 5 de agosto de 1933 – Alagoa Grande, 12 de agosto de 1983), foi uma sindicalista brasileira que durante o período em que esteve à frente do sindicato local, foi responsável por mais de cem ações trabalhistas na justiça do trabalho regional, tendo sido a primeira mulher a lutar pelos direitos trabalhistas no estado da Paraíba durante a ditadura militar. Postumamente, recebeu o Prêmio Pax Christi Internacional em 1988 (Uma Organização não Governamental que desempenhar um papel pioneiro na pesquisa de soluções de conflito armado no mundo).

Dicas de Leitura #5

Foto: Blog Afroteca


"Enegrecer o conhecimento também  é pratica de resistência"

 

Semana passada eu conversava com Viviane Santiago, nossa colaboradora e nossa flor internacional, ela me deu uma ótima sugestão para o Dica de Leitura dessa semana, que hoje entra um pouco mais tarde do que as semanas anteriores por conta dos correria de volta das férias e etc. Agradeço desde já a compreensão dos queridos membro do nosso jardim.

Pois bem vamos ao que interessa; Falávamos sobre questões raciais e de gênero e ela me apresentou A Afroteca, um blog que divulga e compartilha artigos, e-books, textos e dissertações sobre a questão racial. E como disse Viviane: “...Nas palavras da própria autora do blog, a Fernanda Sousa: Enegrecer o conhecimento também é prática de resistência!”Abaixo um texto de apresentação que encontramos no blog e link onde vocês podem encontrar todo esse material, leia, curta, compartilhe, conhecimento faz parte da formação de qualquer cidadão.


Enegrecer o conhecimento pra quê?

 

Enegrecer o conhecimento é metáfora política da necessidade e da importância de se produzir, ter acesso e dar visibilidade a estudos, pesquisas, relatos, autobiografias, que discutem, sob as mais diversas perspectivas, experiências, ideais, saberes, a questão racial. 
Enegrecer o conhecimento é também prática de resistência, é também luta contra o racismo pela palavra-texto, que traz, antes do retrato de uma sociedade ainda eminentemente racista e desigual, anseios e desejos de mudança. 
Se conhecimento também é poder, enegrecer o conhecimento é empoderar a população negra: é empoderar o estudante negro, cotista ou não, que entra na universidade e quer estudar e pesquisar o racismo; é empoderar a mulher negra que cotidianamente luta para afirmar sua identidade e busca por respeito; é empoderar o homem negro que antes de ser um opressor, é também um oprimido; é também, sobretudo, empoderar os negros e negras que, militantes na luta contra o racismo, também precisam, em menor ou maior grau, ler e entender cada vez mais sobre a questão racial. 
Como disse Nilma Lino Gomes uma vez: "É preciso remodelar o conhecimento sob uma dimensão epistemológica que não pode excluir a raça." 





Fonte: AfroTeca

http://afroteca.blogspot.com.br/

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Mateus Solano e a hipersexualização do negro

Um negão para o Félix chamar de seu

 

Por Higor Faria 

 

Não é de hoje que a novela de Walcyr Carrasco, ‘Amor à vida’, tem causado polêmica nas questões étnico-raciais. Há alguns meses atrás, o autor recebeu de telespectadores reclamações de que não havia nenhum negro no elenco. Verdade, não tinha nenhum preto escalado para o folhetim. Depois dessas queixas, chamaram Ana Carbatti para fazer o papel de uma doutora que até então não estava na sinopse. Num país onde mais de 50% da população é negra (IBGE), é no mínimo estranho não haver gente dessa etnia numa trama com tantos atores, mas a discussão não é essa.

A polêmica da vez surge de uma declaração do ator Mateus Solanoprincipal antagonista (e destaque) da trama. Em entrevista, o ator afirmou “Eu cheguei até a cogitar que o Félix seria preso e que encontraria um negão na cadeia que faria ele feliz, ou coisa parecida”. Nesse momento, ouço Ali Kamel berrando “não somos racistas”. Mas nada me tira da cabeça que o discurso de Solano (consciente ou não) se baseia em antigos pilares da estereotipia para estigmatizar o negro alto e corpulentoou, como o próprio ator classifica: o negão.

Ao longo dos séculos, foram construídos e reproduzidos diversos estereótipos sobre o corpo negro, como da mãe preta, da mulata sensual, do negro-de-alma-branca e do negão (aqui um belo trabalho sobre isso no cinema). Esses estereótipos não são motivos de orgulho nenhum e só servem para estigmatizar e reduzir a figura do preto que o carrega e do grupo ao qual faz parte.
Ao negão – homem negro, alto, forte/corpulento – são conferidas duas características principais, a hipersexualização e a violência.

A primeira se traduz no suposto pênis gigante e no excessivo vigor sexual que faria desse cara um ser muito mais viril que o homem branco e, assim, desejado pelas mulheres e homossexuais (Félix, como insinua Solano). A primeiro momento, essa característica pode conferir certo status para o negão, mas há um processo cruel que o reduz a mero objeto sexual. Essa redução à coisa sexual retira a legitimidade do negão a algo “maior e mais nobre” que o tesão, o amor – a ele não é permitido amar ou ser amado.

A segunda característica, a violência, atribuída a esse homem negro é representada pela transgressão, pelo jeito rude, bravo e estourado que não se molda aos ideias de civilidade europeus. E, na fala de Solano, se aproxima de uma transgressão civil que o levará para a cadeia, onde a maior parte dos presidiários é de outros corpos negros.

Ao se atribuir a hipersexualização e a violência a um mesmo indivíduo, esse é afastado do humano e aproximado da coisa. Isto é, animaliza-se esse homem negro, colocando-o num espaço de um instinto sexual que beira o ‘estar no cio’, de menor racionalidade e de menor legitimidade de um relacionamento que envolva amor.

A leitura que faço do discurso de Mateus Solano é de que um homem negro, alto e forte é predisposto a atos violentos (por isso preso) e tem um apetite sexual enorme, tal como seu pênis. E só assim o Félix terá seu castigo e sua redenção. Há outro problema na fala do ator que reduz o ideal de felicidade homossexual ao sexo, mas isso é assunto pra outra hora. O problema aqui apresentado é a reprodução nos dias de hoje de pilares de estereótipos racistas de períodos escravocratas.

Mais uma vez: como é possível que uma pessoa pública encarcere o homem negro, o hipersexualize e o transforme em um destino a altura de um vilão que já jogou recém-nascido em caçamba de lixo, mandou matar outras pessoas e cometeu outros crimes?

Alô, Mateus Solano! Vamos ficar ligados, pois existe racismo quando se reproduz um discurso que estigmatiza um segmento da população negra e ainda quando essa fala supõe que um negão seja um destino justo (a punição e o prazer) para um criminoso como o Félix!

Alô, Ali Kamel, tá na hora de rever o discurso “não somos racistas”!

Fonte: Medium.com



Coletivo Flores Crew na Rádio LAMA

 

Nessa sexta-feira (09), às 18h, o Coletivo Flores Crew participa do programa Revocultura na sintonia da Rádio LAMA - Laboratório de Mídias Autônomas - 88.1 FM, a fim de dar visibilidade as discussões a cerca do Feminismo Negro e autonomia do corpo.


E para acompanhar esse bate-papo basta acessar a 88.1 FM na WEB: http://radiolivre.org/ e http://www.podomatic.com/

A Rádio LAMA fica em meio às comunidades Roda de Fogo e Engenho do Meio.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

FloreSendo Ideias – Juventude, Hip Hop e outras Conversas

 Entre os dias 15 e 17 de novembro a cidade de Moreno na Região Metropolitana do Recife vai receber a 2ª edição do FloreSendo Ideias – Juventude, Hip Hop e outras Conversas.  


O evento é uma produção do Coletivo Flores Crew e tem o apoio da Secretaria de Cultura, Educação e Esporte de Moreno e do Coletivo Primeiro Degrau. 
O evento tem como objetivo Difundir o 
Hip Hop como instrumento de fortalecimento das juventudes além de criar um espaço para diálogo sobre saúde, sexualidade, geração de renda e políticas públicas voltadas para a juventude. 

Em sua 2ª edição contará com 
show’s, rodas de diálogo e uma programação que inclui os pontos turísticos da cidade. Para os artistas convidados a organização do encontro disponibilizará alojamento e alimentação e esse ano a equipe de produção conta com a presença de jovens vindos de vários estados do Brasil e de artistas da América do Sul.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Hoje haverá debate sobre Pixação na UFPE

 


O Coletivo Flores Crew participa hoje (06), às 19h, de um debate sobre pixação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O bate papo é aberto ao público e vai rolar no auditório do Centro de Educação da UFPE, na Cidade Universitária. A tarde, o debate será às 14h30, e conta com a presença de Evson Melquíades, Everson Malaquias e Ômega, às 19h o debate contará com a graffiteira Gabi Bruce (representando o Flores Crew), os professores Rui Mesquisa e Alexandre Simão e terá Esther Rosa como mediadora.

“Vivemos no CE um ACONTECIMENTO: os graffitis nas "nossas" paredes não nos deixam ser os mesmos. Despertou sentimentos e reflexões, que experimentei como canto nesse poema,” Professor Rui Mesquitta.

O GRAFFITI E O TEMPO Que mais adiante sorvam Minha rebeldia, tanto melhor, terei meu grito repousando nas carnes trêmulas da humanidade. E quando, mais tarde, os filhos da agonia passarem por mim – obsequioso, na sala de estar –, não verterei com a mesma fúria, contra mim vertida, a empáfia dos poderosos. Meu canto incontível, Longe de mim, Andará a ermo...

 
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O debate surgiu a partir de reflexões a respeito  das grafitagens e pichações existentes no hall do Centro, sobre as concepções de espaço público, estética e democracia que surgem como desafios teórico-práticos para o Centro de Educação. O evento é uma iniciativa da Diretoria do Centro de Educação (CE) em conjunto com os professores e estudantes.

7 anos de Lei Maria da Penha. O que mudou?


Foto Gláucia Bruce/ FloresCrew

 

Por Janethe Fontes


Quero abrir o tópico explicando o que é violência contra a mulher:


"Na definição da Convenção de Belém do Pará (Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher, adotada pela OEA em 1994), a violência contra a mulher é “qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada. A violência contra as mulheres é uma manifestação de relações de poder historicamente desiguais entre homens e mulheres que conduziram à dominação e à discriminação contra as mulheres pelos homens e impedem o pleno avanço das mulheres…” Referência: http://mariapenha.blogspot.com.br 

A Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006, mais conhecida como ‘Lei Maria da Penha’, que está completando sete anos, foi uma conquista para as mulheres, já que surgiu como forma de prevenir e também de dar assistência e proteção às vítimas de violência doméstica e familiar, assim como penalizar aqueles que cometem tal crime.

Mas, por que temos a sensação que os casos de violência contra a mulher estão aumentando? Ato do movimento de mulheres em Porto Alegre. Foto de Cintia Barenho no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Segundo alguns pesquisadores, o aumentou se deu porque um número cada vez maior de mulheres está se encorajando a denunciar casos de agressão. Mas será que é só isso?

Um levantamento da OMS (Organização Mundial da Saúde) apontou que cerca de 70% das vítimas de assassinato, do sexo feminino, foram mortas por seus parceiros. No Brasil, a cada 15 segundos uma mulher é espancada, e a cada 2 horas 1 mulher é assassinada.

Ainda segundo apontamentos, há três anos, o Brasil ocupa a 7ª posição na listagem dos países com maior número de homicídios femininos. E, conforme o Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos, em parceria com a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, que desenvolveu um Mapa de Violência, detalhando os crescentes índices de mulheres assassinadas em todo o Brasil, na divisão por estado, o Espírito Santo detém o 1º lugar no ranking dos 10 estados com os maiores números de homicídios. Veja abaixo:



Outra pesquisa, desta vez realizada pelo DATASENADO/03/2013, informa que muitas vítimas não denunciam os companheiros à polícia por prever que eles não serão punidos. E, infelizmente, fica difícil convencer que a punição realmente acontece quando se vê tantos casos provando justamente o contrário. Ainda assim, a única forma possível de minimizar a violência é denunciando. 

Até porque a Lei Maria da Penha é bastante eficiente, as falhas estão no cumprimento, já que, lamentavelmente, entre o que se encontra na lei e o que vemos na prática, ainda existe uma distância espantosa. Juízes machistas dão causa ao homem agressor e as medidas de proteção (como proibição de aproximação da vítima e seus familiares), muitas vezes, demoram a ser despachadas ― e, quando são, nem sempre são cumpridas. Daí, fica realmente muito difícil. A sociedade tem de exigir que a Lei Maria da Penha saia integralmente do papel e de fato proteja as mulheres.

Alguns elementos como álcool, drogas e ciúme também são apontados como desencadeadores da violência contra a mulher, mas o fato é que em nossa sociedade, e em vários outros países do mundo, a supervalorização do “homem”, em contraste com a desvalorização da “mulher”, que se reflete na forma de educar as crianças, ainda é, também, um dos fatores perpetuadores desse tipo violência. Afinal, a violência contra a mulher é uma prática que está intimamente ligada à cultura machista.

Por isso, para mudar esse panorama e diminuir as desigualdades, é preciso investir em mudanças na educação de nossas crianças, de nossos jovens, enfim, de nossa sociedade. E isso tem de ser feito em casa e também nas escolas. Aliás, a escola, o educador, tem papel fundamental na formação da cidadania; portanto, não pode se omitir aos debates, às reflexões sobre esse tipo de assunto. Ao contrário disso!

Enquanto os meninos são incentivados a valorizar a agressividade, a força física, a ação, a dominação e a satisfazer seus desejos, inclusive os sexuais, as meninas são valorizadas pela beleza, delicadeza, sedução, submissão, dependência, sentimentalismo, passividade e o cuidado com os outros.
Há necessidade também de aumentar e melhorar as delegacias especializadas em atendimento às vítimas de violência de gênero, sejam elas crianças, mulheres adultas, homossexuais, etc, tendo em vista que mais de 30% das vítimas de violência consideraram o atendimento das DM’s ruim ou péssimo, segundo pesquisas recentes.

"Nenhuma mulher gosta de apanhar. O que acontece é que algumas mulheres ficam tão fragilizadas, com a autoestima tão baixa que não conseguem reagir. Mulheres que ficam com tanto medo de seus parceiros ou são tão dependentes financeiramente que não conseguem ir embora! "[Autor desconhecido]
Janethe Fontes é escritora e tem, atualmente, 3 livros publicados: Vítimas do Silêncio, Sentimento Fatal e Doce Perseguição. Seu 4º livro, O Voo da Fênix, será lançado ainda neste ano. Escreve nos blogs Janethe Fontes e Palavreando.

Fonte: Blog Feministas